Ele parecia como um daqueles que moravam ali. A roupa clássica que ele sempre usava - terno, calça, camisa, gravata e tudo mais - havia sido substituída por uma simples e comum. Ao invés dos sapatos, ele estava com uma sandália suja e velha. O bigode até então aparado, tornou-se uma barba de quem fica meses sem nem sequer se preocupar. Ele tinha os olhos tristes e fundos. Sua feição era de cansaço e sofrimento. Ninguém entendia o que ele queria fazer ali. Dessa vez, ele apareceu montado em um jegue. Tão mal quanto ele. Se duvidar era possível que eles trocassem de posição durante o caminho devido suas aparências.
Pela primeira vez, as pessoas passaram a sentir pena daquele homem sempre tão arrogante e prepotente. Eles não sabiam se aquilo era realmente a verdade, mas se sensibilizaram. Era tão estranho ver alguém assim, ali, como ele. Ele devia ter emagrecido cerca de vinte quilos. A roupa boiava no corpo seco e chupado. O rosto tinha formato de caveira – pensou-se até na possibilidade de doença. Ele desceu do animal, caiu no chão e esticou a mão como se pedisse ajuda. Logo trouxeram um copo d’agua e comida para que ele melhorasse.
Foi assim durante semanas. Ele de repouso, o animal sendo tratado como um deles (o que era comum na aldeia) e todos esforçados para que ele voltasse a viver bem. Depois de um mês ele já falava normalmente e dizia que a vontade era de viver na aldeia para sempre. Todos ficaram pensativos já que não era costume aceitar pessoas de fora. Mas tudo bem, ele se demonstrou ser um bom homem.
Em um dia chuvoso, o qual sempre foi caracterizado pelos agradecimentos a Deus e oferendas, ele resolveu pronunciar algumas palavras a todos. Ele estava melhor do que nunca. Com o macacão característico ele falou alto a bom tom:
- Gostaria de dizer a todos o quão grato estou por estar aqui. Difícil acreditar que um homem como eu que era egoísta, mesquinha e fútil, estou entre vocês. Seres de bom coração e dessa vida simples. Mas como todos sabem, as pessoas não mudam assim tão repentinamente. E isso não seria diferente comigo
Todos começaram a balbuciar entre si sem acreditar no que estavam ouvindo. Ele continuou:
- É por isso que estive aqui todo esse tempo. Estratégias de política. – riu sozinho com um ar sarcástico. Depois de muita revolta dos moradores, ele pediu silêncio e terminou com suas palavras:
- Peço perdão pelo meu erro de ser um ótimo enganador, mas devo admitir que nada mais é de vocês. Caso vocês ainda não saibam, a política é assim. Muito fácil prometer e apenas não cumprir já que virei amigo de vocês. Como sou muito justo, não pedirei que me apoiem para continuar aqui. – E aí sim ele deu altas gargalhadas de ironia. Ninguém acreditava que aquilo era possível, mas foi o que aconteceu.
Todas as casas foram tomadas, além de comida e bens materiais. Depois de todo esse reboliço, um jovem da aldeia disse: - Mas não foi tão ruim assim. Ele permitiu muito para a nossa aldeia. Eu voto para que ele continue aqui.
A maioria ficou perplexa ao ouvir aquilo junto de aplausos de alguns companheiros. E um deles falou: - Aonde vamos parar se nós votarmos em alguém que apenas nos prejudicou?
E eu respondo como narradora:
- Aqui e hoje.